Universidades ou trincheiras políticas? O risco de uma geração formada para militar, e não para pensar
Rodrigo Fernandes | Educação, política e o aparelhamento ideológico do pensamento
Quando a formação acadêmica deixa de ser prioridade, o pensamento crítico é substituído pela obediência ideológica e o diploma corre o risco de se transformar em instrumento de militância.

Existe uma diferença enorme entre formar cidadãos capazes de pensar e formar militantes treinados para repetir pensamentos. A universidade deveria ser um dos principais ambientes de desenvolvimento intelectual de uma sociedade. Um espaço destinado à produção de conhecimento, à pesquisa, à ciência, ao confronto de ideias e à preparação de profissionais capazes de contribuir para o desenvolvimento econômico e social de um país.
Entretanto, há uma questão que merece ser discutida sem receio de patrulhamento ideológico: até que ponto setores da esquerda conseguiram transformar ambientes universitários em espaços de reprodução de suas convicções políticas?
Não se trata de afirmar que todos os professores, estudantes ou cursos universitários estejam submetidos a uma orientação ideológica. Tampouco de desqualificar as ciências humanas, cuja importância para a sociedade é inegável. O problema está na transformação da militância política em finalidade acadêmica, quando a formação profissional, a investigação científica e a liberdade intelectual deixam de ocupar o lugar central.
Em determinados ambientes, parece haver uma inversão de prioridades. O estudante que deveria estar concentrado em adquirir conhecimento, desenvolver competências e preparar-se para os desafios de sua profissão passa a ser estimulado a interpretar praticamente todos os acontecimentos pela lente de uma disputa ideológica.
O debate acadêmico cede espaço à militância. A discordância passa a ser interpretada como uma agressão. O adversário intelectual deixa de ser alguém com quem se pode debater e passa a ser tratado como alguém que precisa ser combatido, constrangido ou silenciado.
A universidade não deveria produzir seguidores. Deveria produzir pensadores.
Da formação profissional à formação ideológica
O Brasil precisa de engenheiros, médicos, professores, pesquisadores, profissionais de tecnologia, administradores, economistas e tantos outros especialistas capazes de produzir riqueza, desenvolver soluções e melhorar a vida da população.
A formação universitária precisa preparar pessoas para enfrentar problemas concretos, desenvolver habilidades e conquistar espaço em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.
É evidente que a universidade não deve ser reduzida a uma agência de preparação para empregos. Sua função também é desenvolver consciência histórica, pensamento filosófico, capacidade de interpretação e compreensão da sociedade.
Mas existe uma diferença fundamental entre ensinar a pensar e ensinar o que pensar.
Quando determinada corrente política passa a ser tratada como a única interpretação moralmente aceitável da realidade, a universidade deixa de cumprir plenamente sua função de promover o conhecimento.
O estudante que questiona determinadas ideias não deveria ser constrangido, rotulado ou tratado como inimigo. O professor que apresenta uma interpretação diferente da predominante não deveria precisar justificar sua existência acadêmica diante de uma patrulha ideológica.
A verdadeira excelência intelectual nasce justamente da possibilidade de discordar.
Uma universidade que não suporta o contraditório não está formando mentes livres. Está criando ambientes de conformidade.
A estratégia da inversão moral: acusar o adversário daquilo que se pratica
Outro fenômeno que merece atenção no debate político contemporâneo é a utilização da inversão moral como instrumento de disputa.
Uma das estratégias mais recorrentes em ambientes de polarização consiste em atribuir antecipadamente ao adversário os comportamentos que o próprio grupo pratica ou tolera.
Acusa-se o outro de intolerância enquanto se tenta impedir que ele fale. Acusa-se o outro de autoritarismo enquanto se defende a censura de opiniões divergentes. Acusa-se o adversário de promover violência enquanto se relativizam agressões quando os responsáveis pertencem ao próprio campo político.
É uma espécie de blindagem moral: primeiro constrói-se a imagem do inimigo como uma ameaça; depois, qualquer reação contra ele pode ser apresentada como legítima defesa.
Essa lógica é particularmente perigosa porque destrói um dos fundamentos da convivência democrática: a igualdade de critérios.
Se uma agressão é condenável quando praticada por alguém de direita, também precisa ser condenável quando praticada por alguém de esquerda. Se a censura é incompatível com a liberdade quando atinge uma corrente ideológica, também é incompatível quando atinge outra.
Não pode existir uma ética para os aliados e outra para os adversários.
O princípio democrático não admite que a violência se transforme em virtude simplesmente porque seu autor acredita estar defendendo uma causa considerada justa.
E aqui está uma das grandes contradições de determinados movimentos políticos: reivindicam para si o monopólio da tolerância, da democracia e da justiça social, mas demonstram enorme dificuldade em aceitar a liberdade de pensamento daqueles que não compartilham suas convicções.
A política do rótulo e a fabricação de inimigos
Quando o argumento perde espaço, o rótulo ganha força.
Em vez de responder a uma crítica, desqualifica-se quem a apresenta. Em vez de discutir uma proposta, questiona-se a moralidade de quem a defende. Em vez de demonstrar que uma ideia está equivocada, procura-se associá-la a alguma categoria considerada socialmente inaceitável.
O objetivo deixa de ser convencer e passa a ser intimidar.
Essa dinâmica encontra terreno fértil em ambientes nos quais a identidade política se sobrepõe à identidade profissional e intelectual.
O estudante deixa de ser avaliado pela qualidade de seus argumentos e passa a ser julgado pela posição ideológica que ocupa. O professor deixa de ser reconhecido pelo conhecimento que produz e passa a ser classificado conforme sua proximidade ou distância de determinada corrente de pensamento.
O resultado é um ambiente empobrecido intelectualmente.
Afinal, se discordar pode custar a reputação, a oportunidade profissional ou a convivência social, muitos preferirão permanecer em silêncio. E quando os que pensam diferente se calam, cria-se a falsa impressão de que todos concordam.
A ausência de contestação passa a ser confundida com consenso.
Nelson Rodrigues e a embriaguez da maioria
É impossível abordar esse fenômeno sem lembrar do dramaturgo e cronista brasileiro Nelson Rodrigues, conhecido por sua capacidade provocadora de identificar contradições humanas e sociais.
Em uma de suas reflexões mais contundentes, Rodrigues escreveu:
“Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica.”
A frase integra uma reflexão publicada em suas crônicas e posteriormente reunida em livros como O Reacionário e Flor de Obsessão.
Independentemente da posição política de quem lê, existe nessa observação uma provocação que merece ser considerada: o fato de uma ideia reunir muitos adeptos não significa que ela seja verdadeira, correta ou intelectualmente superior.
A maioria pode estar equivocada. A popularidade não transforma uma opinião em conhecimento. A quantidade de pessoas que repetem determinada afirmação não substitui a necessidade de demonstrá-la.
A chamada embriaguez da onipotência numérica é justamente a sensação de que estar em maior número concede o direito de determinar o que pode ou não ser pensado, discutido e defendido.
É quando a força do grupo passa a valer mais do que a força do argumento.
E esse comportamento não é exclusividade de uma ideologia. Pode aparecer em qualquer movimento que substitua o pensamento individual pela submissão coletiva.
O problema se agrava quando essa mentalidade alcança instituições que deveriam ser justamente o último refúgio da liberdade intelectual.
O verdadeiro pensamento crítico não tem lado obrigatório
Existe uma ironia particularmente reveladora no discurso de determinados setores militantes: falam constantemente em pensamento crítico, mas demonstram pouca disposição para aceitar o pensamento crítico quando ele se volta contra suas próprias convicções.
Pensamento crítico não é concordar com a esquerda. Tampouco é concordar com a direita.
É ter liberdade para questionar ambas.
Um estudante verdadeiramente preparado precisa ser capaz de questionar o capitalismo, o socialismo, o liberalismo, o conservadorismo, as políticas públicas, os governos e as próprias instituições acadêmicas.
Precisa aprender a distinguir opinião de evidência, argumento de propaganda e conhecimento científico de convicção pessoal.
Uma universidade livre não deve temer que seus alunos se tornem liberais, conservadores, socialistas ou libertários. Deve temer que eles se tornem incapazes de pensar sem autorização de seus grupos políticos.
A liberdade acadêmica não existe para proteger uma ideologia. Existe para proteger a investigação, o conhecimento e o direito de discordar.
O Brasil precisa de profissionais, não de exércitos ideológicos
O país enfrenta desafios gigantescos na educação, na economia, na produtividade, na inovação e na formação de mão de obra qualificada.
Nesse cenário, transformar a universidade em extensão de disputas partidárias representa um desperdício de seu potencial.
O jovem brasileiro merece uma formação que amplie suas possibilidades, não que limite sua visão de mundo. Merece aprender a construir, produzir, pesquisar, empreender, questionar e desenvolver soluções.
Pode e deve participar da política, defender suas convicções e lutar por aquilo em que acredita. Mas não pode ser levado a acreditar que a militância é substituta da competência, que a identidade ideológica é mais importante do que o conhecimento ou que a hostilidade contra o adversário constitui uma demonstração de superioridade moral.
A universidade precisa recuperar sua vocação intelectual.
O professor precisa ter liberdade para ensinar. O estudante precisa ter liberdade para discordar. A pesquisa precisa estar acima das conveniências partidárias. E o mérito acadêmico precisa valer mais do que a fidelidade a qualquer movimento político.
Nelson Rodrigues enxergou, à sua maneira provocadora, o perigo de uma sociedade na qual a quantidade pretende substituir a qualidade e o barulho coletivo pretende substituir a inteligência individual.
Talvez a maior tragédia não seja a existência de militantes nas universidades. A participação política faz parte da vida democrática.
A tragédia começa quando a militância passa a ser mais importante do que a formação, quando a obediência ideológica vale mais do que o conhecimento e quando o estudante aprende a identificar inimigos antes mesmo de aprender a construir argumentos.
Uma universidade deve ser uma fábrica de conhecimento, não uma fábrica de soldados políticos.
Porque um país que forma profissionais competentes tem condições de construir seu futuro. Um país que transforma suas instituições de ensino em trincheiras ideológicas corre o risco de formar gerações mais preocupadas em vencer disputas políticas do que em resolver os problemas reais da sociedade.
E nenhuma nação se desenvolve sacrificando o conhecimento no altar da ideologia.
Editorial de opinião. As avaliações sobre a atuação de setores da esquerda e a politização do ambiente universitário representam uma interpretação crítica do cenário político e educacional, não uma afirmação de que todas as universidades, professores ou estudantes compartilhem dessas práticas.
Referências para contextualização
- Nelson Rodrigues, O Reacionário — crônicas e reflexões sobre a sociedade brasileira. A passagem sobre a onipotência numérica também é reproduzida em estudos sobre sua obra. Instituto Millenium+2
- Estudo acadêmico sobre Nelson Rodrigues e sua visão crítica da sociedade.
- Estudo sobre disputas ideológicas e universidades públicas brasileiras.



